O QUE É “LA MISE EN RELIEF” NA GRAMÁTICA FRANCESA [COM ÁUDIO]

Imagine que você quer dizer a alguém que foi você, e não outra pessoa, quem escreveu aquela carta. Ou que foi ontem, e não hoje, que o evento aconteceu. Em português, muitas vezes resolvemos isso com entonação. Em francês escrito, existe uma solução elegante e sistemática para isso: la mise en relief.

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Imagine que você quer dizer a alguém que foi você, e não outra pessoa, quem escreveu aquela carta. Ou que foi ontem, e não hoje, que o evento aconteceu. Em português, muitas vezes resolvemos isso com entonação. Em francês escrito, existe uma solução elegante e sistemática para isso: la mise en relief.

A expressão francesa mise en relief pode ser traduzida literalmente como colocação em relevo, ou seja, trazer algo à superfície, fazê-lo sobressair. Na gramática, trata-se de um conjunto de construções sintáticas cujo objetivo é enfatizar um elemento específico da frase, tornando-o o foco da informação.

Toda língua possui recursos para enfatizar. No português, recorremos à entonação, à ordem das palavras ou a expressões como foi ele quem… O francês, por sua vez, desenvolveu mecanismos próprios, claros e muito utilizados tanto na fala cotidiana quanto na escrita literária.

Dominar a mise en relief é um passo fundamental para quem deseja soar natural em francês. Sem ela, a língua fica plana, sem nuance. Com ela, você passa a comunicar não apenas fatos, mas também perspectiva, contraste e intenção. Neste post, vamos explorar os quatro principais casos da mise en relief, com definição, explicação gramatical e dez exemplos para cada um.

En route !

1. C’EST… QUI / C’EST… QUE

Esta é, sem dúvida, a forma mais frequente e mais versátil da mise en relief. A estrutura funciona como uma moldura: o elemento que se deseja enfatizar é colocado entre c’est (ou ce sont, no plural) e um pronome relativo, qui ou que.

A regra é direta: usa-se qui quando o elemento enfatizado é o sujeito do verbo principal, e que quando se trata de qualquer outro elemento, seja objeto direto, complemento circunstancial de tempo, lugar, causa, etc.

Veja a transformação: a frase neutra

Marie a appelé Paul hier. (Marie ligou para Paul ontem.) 

pode ser desmembrada em três versões com ênfases diferentes: sobre o sujeito, sobre o objeto ou sobre o tempo, mantendo o mesmo conteúdo factual, mas mudando completamente o foco da comunicação. 

É importante lembrar também que, quando o elemento enfatizado é um pronome pessoal, ele assume a forma tônica: moi, toi, lui, elle, nous, vous, eux, elles

Vejamos exemplos:

C’est Marie qui a appelé Paul hier. (Foi a Marie quem ligou para o Paul ontem. – ênfase no sujeito)

C’est Paul que Marie a appelé hier. (Foi o Paul que a Marie ligou ontem. – ênfase no objeto)

C’est hier que Marie a appelé Paul. (Foi ontem que a Marie ligou para o Paul. – ênfase no tempo)

C’est mon professeur qui m’a inspiré. (Foi o meu professor que me inspirou.)

C’est à Paris qu‘ils se sont rencontrés. (Foi em Paris que eles se conheceram.)

C’est toi qui as raison. (É você quem tem razão.)

C’est pour cette raison qu‘il est parti. (Foi por essa razão que ele foi embora.)

C’est le directeur qui a pris la décision. (Foi o diretor quem tomou a decisão.)

Ce sont les enfants qui ont mangé le gâteau. (São as crianças que comeram o bolo.)

C’est demain qu‘on saura les résultats. (É amanhã que saberemos os resultados.)

2. PRONOME TÔNICO + RETOMADA COM C’EST

O segundo caso trata especificamente da ênfase sobre pronomes pessoais. Em francês, os pronomes sujeito comuns (je, tu, il…) são átonos, ou seja, não carregam acento prosódico. Para enfatizá-los, é necessário recorrer às formas tônicas: moi, toi, lui, elle, nous, vous, eux, elles.

Essas formas tônicas podem aparecer isoladas no início da frase, em oposição a outro elemento (Moi, j’aime ça, lui, non.), ou combinadas com a estrutura c’est… qui para reforçar ainda mais o contraste. Este recurso é muito frequente na língua falada, especialmente em situações de debate, defesa de um ponto de vista ou simples ênfase emocional.

Note que, diferentemente do Caso 1, aqui a ênfase recai exclusivamente sobre quem realiza a ação, carregando um peso quase dramático: Fui eu. Não foi mais ninguém. Eu.

Vejamos exemplos:

Moi, c’est moi qui ai tout fait. (Fui eu quem fez tudo.)

Lui, il ne comprend jamais rien. (Ele nunca entende nada mesmo.)

Toi, tu exagères toujours. (Você sempre exagera, hein.)

Elle, elle sait toujours quoi dizer. (Ela sempre sabe mesmo o que dizer.)

Nous, on préfère rester aqui. (Nós, no caso, preferimos ficar aqui.)

Eux, ils ont choisi la facilité. (Foram eles que escolheram o caminho fácil.)

C’est lui qui devrait s’excuser. (É ele quem deveria se desculpar.)

C’est nous qui payons les conséquences. (Somos nós mesmos que pagamos as consequências.)

Moi, j’aurais agi différemment. (Eu, no caso, teria agido de forma diferente.)

Vous, vous avez la chance de choisir. (São vocês que têm a sorte de poder escolher.)

3. DESLOCAÇÃO

A deslocação é um dos recursos mais característicos do francês falado. Nela, um elemento nominal da frase é deslocado para o início ou para o final da sentença, e em seu lugar original é inserido um pronome que retoma o elemento deslocado.

Na deslocação à esquerda, o falante apresenta o tema primeiro e depois desenvolve o comentário: Ce film, je l’ai vu trois fois. (Este filme eu vi três vezes.)

Na deslocação à direita, a estrutura é invertida: o comentário vem primeiro, e o elemento é retomado ao final como uma espécie de aposto enfático: 

Il est brillant, ce garçon. (Este menino é brilhante mesmo.)

Esta construção acontece muito no francês falado e cria um efeito de tópico-comentário, semelhante ao que fazemos em português quando dizemos: Aquela série — assisti do começo ao fim.

Vejamos exemplos:

Ce film, je l’ai vu trois fois. (Esse filme, eu o vi três vezes.)

Il est brillant, ce garçon. (Ele é brilhante, esse menino.)

Marie, elle travaille trop. (A Marie, ela trabalha demais.)

Je les adore, tes parents. (Eu adoro eles, os teus pais.)

Ce problème, on ne peut pas l’ignorer. (Esse problema, não podemos ignorá-lo.)

Elle est délicieuse, cette tarte. (Ela é deliciosa, essa torta.)

Les règles, tout le monde doit les respecter. (As regras, todo mundo deve respeitá-las.)

Tu la connais bien, cette situation. (Você a conhece bem, essa situação.)

Cet homme, je ne lui fais pas confiance. (Esse homem, eu não confio nele.)

C’est difficile, la patience. (É difícil, a paciência.)

4. CE QUI… C’EST / CE QUE… C’EST

O quarto caso é o mais sofisticado dos quatro. Utilizado para enfatizar ideias abstratas, ações ou orações inteiras, ele funciona com duas construções paralelas: ce qui… c’est (quando o elemento enfatizado é sujeito) e ce que… c’est (quando é objeto ou complemento).

A lógica é similar à do Caso 1, mas aqui não se trata de um substantivo isolado, trata-se de uma ideia completa. Por isso, esta estrutura é particularmente poderosa em argumentações, discursos e textos que pretendem comunicar valores, desejos ou opiniões com força expressiva.

Em português, uma construção análoga seria O que me irrita é o barulho ou O que eu quero é ir embora. O francês funciona da mesma forma, mas com uma precisão gramatical mais explícita na escolha entre qui e que.

Vejamos exemplos:

Ce qui m’énerve, c’est le bruit. (O que me irrita é o barulho.)

Ce que je veux, c’est partir. (O que eu quero é ir embora.)

Ce qui compte, c’est l’effort. (O que importa é o esforço.)

Ce que j’aime, c’est la simplicidade. (O que eu gosto é da simplicidade.)

Ce qui est surprenant, c’est son calme. (O que é surpreendente é a sua calma.)

Ce que nous cherchons, c’est la vérité. (O que procuramos é a verdade.)

Ce qui me manque, c’est le temps libre. (O que me falta é tempo livre.)

Ce que tu dis, c’est exactement ça. (O que você diz é exatamente isso.)

Ce qui est important, c’est de rester honnête. (O que é importante é permanecer honesto.)

Ce que j’admire chez elle, c’est sa détermination. (O que admiro nela é a sua determinação.)

CONCLUSÃO: FALAR COM INTENÇÃO

Quando começamos a estudar francês, muitas vezes pensamos que certas estruturas gramaticais pertencem apenas aos livros, às redações formais ou à literatura. Mas a mise en relief não é assim. Ela não é um enfeite sofisticado da língua, é uma ferramenta viva, usada o tempo todo pelos francófonos no dia a dia. Você vai ouvi-la numa conversa entre amigos, num debate político, numa propaganda de TV ou nas páginas de um romance. Ignorá-la é como tentar falar francês sem uma das maneiras mais naturais de dar destaque ao que realmente importa na frase.

Ao longo desta explicação, vimos quatro formas muito comuns de criar essa ênfase. Na prática, elas cobrem a maioria das situações em que alguém quer chamar a atenção para uma parte específica da frase. Cada uma tem o seu terreno favorito.

A estrutura c’est… qui / c’est… que é a campeã quando queremos destacar um substantivo ou um elemento bem definido da frase. Já os pronomes tônicos entram em cena quando a ênfase é mais pessoal, quase dramática, quando queremos deixar claro quem está fazendo algo ou quem realmente importa naquele contexto.

Temos também a deslocação, que é extremamente comum no francês falado. É aquele jeitão mais natural e espontâneo da língua, típico das conversas do cotidiano. E, por fim, a estrutura ce qui / ce que… c’est, que aparece muito quando a ideia é enfatizar algo mais abstrato, explicar um ponto ou construir um argumento com um pouco mais de clareza.

Agora vem a parte mais importante: como transformar tudo isso em algo natural para você. A melhor estratégia não é decorar regras, é prestar atenção ao francês de verdade. Séries, podcasts, entrevistas, livros, artigos… quanto mais você se expõe à língua, mais começa a perceber esses padrões aparecendo naturalmente. No início, você identifica a estrutura; depois de um tempo, passa a entendê-la sem esforço. E chega um momento em que você mesmo começa a usá-la, quase sem perceber.

É assim que a mise en relief deixa de ser uma regra do livro e passa a fazer parte da sua intuição na língua.

Bonne continuation et bons études !

Veja também:

⇒ QUAND ON PARLE DU LOUP | O QUE SIGNIFICA ESTA EXPRESSÃO [COM ÁUDIO]

⇒ HISTÓRIA EM FRANCÊS FÁCIL – O MÁGICO DE OZ [COM ÁUDIO]

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ADIR FERREIRA

Professor poliglota, desde 2007 produz conteúdo online e é autor dos cursos Francês Autêntico, Pronúncia Prática, Domine o Subjuntivo, Francês com Filmes e também de vários e-books para o aprendizado da língua francesa.

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